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Foto: globoesporte.com |
O estádio
Jair Toscano de Brito estava praticamente vazio, porém, com os predicados de um
iminente palco de jogo da Série B do Campeonato Carioca. O público presente
era barulhento, nada amistoso à arbitragem e ao adversário. Vendedores berravam tanto para encontrar
clientes que rivalizavam com os gritos da torcida. Pais, mães e filhos usaram
a tarde da última quarta-feira como programa familiar, afinal, o tempo chuvoso
não recomendava curtir as agradáveis praias de Angra dos Reis. Naquele dia, o
time da cidade, de mesmo nome, receberia o Goytacaz. A primeira partida de
Rodrigo Castanheira em 2015, o auxiliar que, um ano antes, não validara gol de
Douglas, mesmo com a bola tendo ultrapassado a linha em 33cm, justamente em um
clássico, entre Vasco e Flamengo. Pois o homem do apito entrou em campo, teve
atuação perfeita, capaz de expulsar um atleta da equipe da casa, e saiu dele 90
minutos depois como se fosse apenas Rodrigo Castanheira. Despercebido. Um desconhecido. Algo
bem diferente do que viveu a partir de 6 de fevereiro de 2014. Tudo o que
passou, a “tempestade”, como define o período, com ameaças, dúvidas quanto à
própria capacidade, a obrigação em fazer exames, a certeza em retomar a
carreira, o apoio da esposa e dos filhos, virou passado. Rodrigo Castanheira
faz questão de ser apenas Rodrigo Castanheira, o juiz, o marido, o pai, o
professor de Educação Física. Nem de longe quer, aceita ou teme ficar marcado
como o árbitro que não deu o gol de Douglas.
É difícil falar
com Rodrigo sem citar, lembrar o 2 a 1 do Rubro-Negro sobre o Cruz-Maltino pela
Taça Guanabara. Pois recordamos: falta para o Vasco. Douglas e Fellipe Bastos
estão postados. O meia corre, bate, a bola acerta o travessão, quica dentro do
gol de Felipe e sai. Gol. Claro. Legítimo. São 33cm que separam a bola da linha
do gol. O auxiliar de linha, à época, estava bem posicionado. Distante cinco
metros. Não validou e o árbitro principal Eduardo Guimarães mandou o jogo seguir. Foi o começo
de uma tremenda confusão. Que saiu das quatro linhas, envolveu polícia e até
hoje deixou marcas. Uma delas é percebida logo ao começar a conversa:
- Não quero
ficar refém de um lance. Foi um erro. Isso passou. Quem nunca errou? Vivi uma
tempestade e não quero viver isso de novo.
A defesa se
explica. Rodrigo teve o endereço vazado por um torcedor vascaíno no Twitter.
Foi ameaçado - a Polícia Civil abriu investigação, inclusive. Temeu pela segurança da esposa e dos
filhos, uma menina de oito e um menino de dois anos, cujos nomes ele evita
revelar. Teve de se isolar. Deixou a casa onde mora, no Rio, por uma semana, no
feriado de Carnaval. Virou até fantasia da festa popular, com o adendo nada amistoso: um óculos,
um sugestivo “apelido” de cego. E demorou para retomar a rotina.
Mas o que
ele fez? Como conseguiu? Para entender é preciso separar o dentro do fora de
campo. Por determinação do presidente da Ferj, Rubens Lopes, Rodrigo só votaria
a trabalhar após passar por uma bateria de exames, todos bancados pela
federação. Os fez. No Rio e em São Paulo. Um oftalmologista não encontrou
nenhuma deficiência. Um neurologista, idem. E um psicólogo o acompanhou por um
mês. Foi o período em que demorou para voltar a ser quarto árbitro, em duas
oportunidades, ainda em 2014. Ou seja: não houve punição, posição tomada pelo
presidente da Coaf, Jorge Rabello, que o conhece desde o ingresso no curso de
arbitragem, em 2002.
O que aconteceu
foi que ultrapassou o limite da capacidade do olho humano
Rodrigo Castanheira
-
Fiz todo
o procedimento correto. Me posicionei, girei o corpo. Mas não vi a bola
ter
passado toda a linha. Tanto que falei "segue, segue, segue". O que
aconteceu
foi que ultrapassou o limite da capacidade do olho humano. Há estudos
que
mostram que o milésimo de segundo do piscar dos olhos interfere na
visão. Foi
isso. A Ferj e a Coaf entenderam isso. E eu agradeço. Seria muito fácil
punir,
me afastar. A primeira semana, três ou quatro dias.. foram de muita
chateação. De muita cobrança. Gera dúvidas. Dei a volta por cima pois
amo o que faço, amo o futebol - recorda.
Mesmo
assim, demorou mais a apitar como árbitro principal. A volta ocorreu,
igualmente, na Série B: São João da Barra x São Gonçalo em 16 de abril.
Exatamente dois meses depois do erro. Àquela altura, a confiança foi retomada
nas sessões terapêuticas. E a forma física havia sido mantida com exercícios.
Foram ainda outros oito jogos como juiz, todos do Estadual, entre Série B,
Série C, e da Copa Rio, o último entre Angra e Goytacaz.
- Voltei em
um jogo complicado, de estádio cheio. Se eu fosse bem, seria a confirmação de
que eu teria superado tudo. Se eu fosse mal, talvez eu me questionasse se eu
deveria continuar arbitrando. Graças a Deus, fui bem. Assim como no último, o
primeiro de 2015. Me exigiu muito, física e tecnicamente. Arbitragem e o
futebol são assim: imprevisíveis e esse é o maior barato - destaca, para
completar:
- Nunca usaram
o erro dentro de campo para me desestabilizar. As pessoas que me conhecem, me apoiaram.
Os jogadores e os treinadores vêm falar e dar abraço. Dar apoio. Isso é bonito.
O fora de
campo ajudou. Família e amigos apoiaram. Os diretores dos dois Cieps em que dá
aula, em Duque de Caxias, de acordo com Rodrigo, tiveram comportamento
exemplar. Conversaram, mostraram as coisas boas feitas por ele, bateram na
tecla batida por ele em todas as aulas aos adolescentes do Ensino Médio:
persistência.
- Sempre
falo para o menino ou para a menina não desistir da realização de qualquer
sonho. Para nunca perder a fé. Confiar e Deus. Se tem um plano para a sua vida,
por mais que tenha obstáculos, tem de superá-los. A minha aula foi dada a mim.
Meu sonho era ser juiz de futebol. E não desisti dele. Por isso, mato um leão a
cada dia - acrescenta.
A atuação
do árbitro sempre é analisada em relatório feito por um observador da Ferj.
Desde o erro, Rodrigo teve boas avaliações. A julgar pela última quarta, por
exemplo, deve repetir a média. Foi perfeito. Distribuiu seis amarelos. E um
vermelho, direto, ao zagueiro Robson por falta violenta, um carrinho lateral
com os dois pés em um atacante adversário. Decisão que revoltou a torcida
local. E os jogadores. O juiz foi cercado, mas manteve a calma. Teve sorte, é
verdade, pois, mesmo com a demora da entrada do policiamento, nada de grave
ocorreu. Mas se ninguém lembrou do erro no Clássico dos Milhões, não escapou de
críticas de torcedores. Sempre no caráter de pressionar.
- Apita
direito ou vou furar o pneu da van! (que levaria a arbitragem de volta ao Rio
após o jogo).
- Seu juiz,
meu time tem de subir e você não pode atrapalhar!
Claro que elas
não surtiram efeito. Rodrigo se posicionou bem. Sempre correu na diagonal. Não
permitiu violência. E olha que as disputas de bola foram ríspidas. Soube
conversar o orientar os atletas em campo. “Normal, normal” era a maneira de
informar que não houve falta, “segura, segura” para chamar a atenção com o
excesso de faltas, “não adianta caminhar” para coibir a clássica andada da
barreira. Resultado de preparação. Ao saber da escala, estuda os times. Sempre
chega três horas antes da partida. Para conhecer o local de trabalho. Se
concentrar. Antes de entrar em campo, reza. E, ao dar o apito inicial, faz o
sinal da cruz. Tudo para ter um bom trabalho. Para ter uma avaliação, como
feita pelo treinador do Angra, Carlos Alberto Santos:
- Ele foi
perfeito. Decidiu os lances com precisão. E expulsou corretamente o meu jogador.
E, claro, para não cometer erros como o do dia
16 de fevereiro de 2014.
Por Globo Esporte